“Fazer mais com menos” ou fazer cada vez “mais com simplesmente nada” parece que virou um mantra corporativo nestes cenários instáveis de crise financeira. Diversas empresas têm levado a redução de custos a níveis caricatos – como a retirada de celulares de gerentes e a obrigatoriedade de uso de ônibus, ao invés de táxi, para diretores (é verdade, conheço alguns casos). Tudo bem, dirão vocês: se for pela salvação do negócio. E eu direi tudo bem também se não resultar em paranóia completa ou burrices com tintura de idéia genial que atingem em cheio o funcionamento eficiente do próprio negócio.
Para a área de comunicação, então, classificada como custos, pois muitas vezes olhada como “aquele pessoal que organiza festas” ou “aquela turma que vai fazer o jornalzinho do projeto”, a crise surge como mais um desafio. Porque o “mais com nada” torna-se uma verdadeira ditadura financeira sobre a vida profissional e o fluir necessário da comunicação entre times de trabalho, clientes e demais públicos de interesse das empresas.
Nessa linha de pensamento, soluções como estimular a comunicação face a face aparecem como a salvação da lavoura. Quer coisa mais barata do que conversar? Genial! Mas, depois de cancelar a circulação do jornal interno e cortar as campanhas internas previstas para o ano (além de tesourar a verba da agência de publicidade), abracadabra: como fazer dos gestores o canal mais confiável para a comunicação interna?
Surgem idéias fabulosas então, como uma concorrência com consultorias especializadas – umas oito ou dez empresas (outro absurdo completo gerado pela tirania do buscar o menor custo possível), para treinar executivos a falar! Ora, treinamento para falar direito a gente faz com papagaio, não com gente e, portanto, muitas horas úteis são perdidas nessa tarefa. Mesmo porque o projeto original da consultoria vencedora ganha reduções brutais para se adaptar ao que restou do budget original.
“Como? Comunicação face a face não deveria ser tão caro assim” diz o financeiro! E o projeto que iria mexer com o emocional, iria desmontar barreiras, humanizar relações e integrar equipes sobrecarregadas e desmotivadas acaba tornando-se uma corrida contra o relógio. Executivos hiper atarefados, impacientes, aglomerados numa sala, sempre atendendo o celular acabam sendo treinados em técnicas de “como passar os objetivos da empresa de maneira rápida” ou “como aperfeiçoar o tempo gasto numa reunião de face a face”. Viram? O verdadeiro face a face foi pro brejo.
E assim a empresa acaba tratando muitos empregados na base da pré-história onde a conversa face a face é de cinco minutos e serve apenas para dar ordens e lembrar sobre? Custos! O que me lembra de um empregado numa recente entrevista que fiz: “O face a face aqui tem uma face só!” registrando, cabisbaixo, o monólogo da chefia com seus subordinados.
Brincadeiras à parte. Quero terminar dizendo que os exageros e as ações sem reflexão colocam projetos e modelos de gestão em risco, comprometem a inovação, criando locais onde o erro é intolerável. Desumanizando relações já que ordens e cortes inexplicáveis atingem diretamente os corações humanos e transformam organizações inteiras em crematórios de valores.
Sim, corações e emoções, intangíveis que merecem entrar nos cálculos financeiros. Mas isso já é matéria para outro artigo. Vou ficando por aqui, pois já me ensinaram que escrever é cortar palavras e não acusarem mais os comunicadores de não fazer economia em tempos de crise.
Luiz Antônio Gaulia é jornalista, publicitário e consultor de empresas.
Escreve no BLOG DO GAULIA (http://gaulia.blogspot.com) e no twitter: www.twitter.com/gaulia







