{"id":332,"date":"2009-09-15T23:21:51","date_gmt":"2009-09-15T23:21:51","guid":{"rendered":"https:\/\/agenciaunicom.com.br\/blog\/?p=332"},"modified":"2020-11-01T23:24:10","modified_gmt":"2020-11-01T23:24:10","slug":"quanto-vale-o-jornalismo-socioambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agenciaunicom.com.br\/blog\/quanto-vale-o-jornalismo-socioambiental\/","title":{"rendered":"Quanto vale o jornalismo socioambiental?"},"content":{"rendered":"\n<p>O papel das chamadas eco-m\u00eddias, ou ve\u00edculos que trabalham com pautas de sustentabilidade, na busca da sociedade por um modelo de produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel e as dificuldades de capta\u00e7\u00e3o de recursos para financiar a informa\u00e7\u00e3o foram os principais temas do \u201cDi\u00e1logos EcoM\u00eddias\u201d, realizado pela Envolverde e a Ruschel &amp; Associados, em S\u00e3o Paulo.<br><br>Ao abrir os debates, que contaram com a participa\u00e7\u00e3o dos editores das principais m\u00eddias especializadas em sustentabilidade, publicit\u00e1rios, profissionais de marketing e educadores, o jornalista Dal Marcondes, diretor da Envolverde, levantou a quest\u00e3o do financiamento da informa\u00e7\u00e3o afirmando que \u201cn\u00e3o se consegue fazer com que o mercado publicit\u00e1rio, que \u00e9 quem financia a informa\u00e7\u00e3o neste pa\u00eds, perceba que deve ter um certo ju\u00edzo de valor sobre o conte\u00fado, sobre a informa\u00e7\u00e3o que \u00e9 passada para essa parcela da sociedade.<br><br>Para o jornalista, \u00e9 preciso mostrar aos anunciantes que comprar um p\u00e1gina de publicidade em uma dessas publica\u00e7\u00f5es significa, \u201cal\u00e9m de comprar visibilidade para o seu produto diante de um determinado p\u00fablico, financiar a informa\u00e7\u00e3o para aquele p\u00fablico\u201d. Em sua opini\u00e3o, o empres\u00e1rio n\u00e3o deve ver na publicidade em uma m\u00eddia ambiental apenas um bom n\u00famero na \u201crela\u00e7\u00e3o custo por mil\u201d. \u201cEle precisa saber que quando ele opta por um ve\u00edculo ele est\u00e1 dizendo tamb\u00e9m que aprova aquele conte\u00fado\u201d, explica.<br><br>Marcondes argumenta que isso se deve \u00e0 relev\u00e2ncia desse tipo de informa\u00e7\u00e3o para a sociedade. \u201cHoje \u00e9 consenso, em qualquer debate sobre sustentabilidade, que a informa\u00e7\u00e3o e o conhecimento s\u00e3o estruturais para mudar os paradigmas de desenvolvimento sobre os quais est\u00e1 alicer\u00e7ada a nossa economia. Sem informa\u00e7\u00e3o, sem conhecimento, a sociedade n\u00e3o ser\u00e1 capaz de empreender para solucionar os desafios da constru\u00e7\u00e3o de um novo modelo de desenvolvimento\u201d, destaca.<br><br>Ele adverte, no entanto, que essa quest\u00e3o n\u00e3o tem sido abordada nos debates sobre a sustentabilidade. \u201cA quest\u00e3o de levar a informa\u00e7\u00e3o de forma consistente e generalizada para a sociedade n\u00e3o est\u00e1 nos planos nem das empresas nem do governo\u201d.&nbsp; Segundo ele, h\u00e1 ainda uma tend\u00eancia em se encarar o jornalismo ambiental como um trabalho volunt\u00e1rio, agravada pela falta de percep\u00e7\u00e3o da sociedade dos altos custos do jornalismo de qualidade. \u201c\u00c9 uma atividade profissional cara, que exige conhecimento, compet\u00eancia, log\u00edstica e muitos outros custos\u201d, explicou.<br><br>Ricardo Voltolini, fundador e diretor da revista Ideia Socioambiental e um dos palestrantes,&nbsp; concordou com Dal Marcondes e foi al\u00e9m, classificando a discrimina\u00e7\u00e3o sofrida pelas m\u00eddias ambientais como uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica. Comparou o espa\u00e7o que as publica\u00e7\u00f5es e sites de sustentabilidade tem hoje com o mural da faculdade, de quatro metros quadrados, fixado em uma parede limpa de cem metros. \u201cNos estamos em um muralzinho, que fica dependurado na parede com t\u00edtulo de alternativos, ou militantes\u201d, compara.<br><br>Voltolini narrou as dificuldades que enfrentou para lan\u00e7ar e manter sua revista. Disse que seu projeto foi chamado de \u201calternativo\u201d ou \u201cmilitante\u201d, um tipo de ve\u00edculo que receberia um an\u00fancio publicit\u00e1rio \u201ctalvez daqui a mil anos\u201d. Apesar das dificuldades, conta que lan\u00e7ou a revista com tr\u00eas \u201capoiadores\u201d e conseguiu mant\u00ea-la sem d\u00e9ficit, at\u00e9 hoje, chegando a uma situa\u00e7\u00e3o superavit\u00e1ria na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o.<br><br>Mas, segundo ele, a descoberta de que n\u00e3o havia mercado entre as ag\u00eancias de publicidade para a Ideia Socioambiental chegou logo. Diante disso, resolveu seguir a \u201cl\u00f3gica do apoiador\u201d. Lan\u00e7ou a revista, ent\u00e3o, com o apoio de tr\u00eas empresas. \u201cAgora estamos partindo para o quinto ano. Tivemos o primeiro ano complicado mas no terceiro ano a revista come\u00e7ou a receber an\u00fancios mais regulares e come\u00e7ou a gerar algum lucro\u201d, relata, destacando que a primeira edi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-crise atingiu o potencial publicit\u00e1rio previsto em seu planejamento.<br><br>O diretor da Ideia Socioambiental acredita que chegou a hora de as ecom\u00eddias ocuparem o espa\u00e7o fora dos quatro metros quadrados que lhe foram reservados. Mas isso, segundo ele, s\u00f3 pode acontecer com a uni\u00e3o de todos. \u201cPara al\u00e9m das nossas dificuldades e diferen\u00e7as, o que h\u00e1 de comum em n\u00f3s que pode nos reunir em torno de uma plataforma capaz de ocupar a parede toda?\u201d, pergunta Voltolini. Para ele \u00e9 a hora de dar um salto, lembrando que, em termos de audi\u00eancia, essa plataforma comum a todas as m\u00eddias ambiental pode ser maior que a de qualquer ve\u00edculo hoje no Brasil.<br><br>Uma das principais causas da dificuldade de capta\u00e7\u00e3o de publicidade das ecom\u00eddias, na opini\u00e3o de Voltolini, \u00e9 a divis\u00e3o. Ele explica que existem apenas 20 a 30 empresas anunciantes regulares nesse tipo de publica\u00e7\u00e3o no Brasil. \u201cO problema \u00e9 que a gente divide, a gente compete pelos mesmos recursos e acaba batendo nas mesmas portas\u201d, disse, justificando sua proposta de uni\u00e3o de todos em uma plataforma comum.<br><br>Peter Milko, editor Horizonte Geogr\u00e1fico, outro integrante da mesa, endossa as palavras de Dal Marcondes e Voltolini, relatando as dificuldades de sua revista, fundada em 1987. Milko contou que a publica\u00e7\u00e3o nasceu, assim como as demais, de forma idealista e sempre dependeu de outras atividades econ\u00f4micas da empresa. Concorda tamb\u00e9m que h\u00e1 mercado e que, apesar das dificuldades, a revista tem boas perspectivas.<br><br>O diretor da HG observa que uma avalia\u00e7\u00e3o feita a partir da quantidade de releases e convites que os editores recebem poderia concluir que a receptividade das ecom\u00eddias \u00e9 boa entre os empres\u00e1rios. \u201cA gente percebe que as empresas adorariam ver o rosto delas, o assunto delas na \u00e1rea de sustentabilidade, impresso nas p\u00e1ginas das ecomidias, mas atrav\u00e9s da assessoria de imprensa e n\u00e3o atrav\u00e9s de algum tipo de remunera\u00e7\u00e3o\u201d.<br>&nbsp;<br>Para Milko, \u00e9 preciso um debate maior sobre os crit\u00e9rios de divulga\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. Ele denunciou uma tend\u00eancia de barganha das empresas, condicionando o espa\u00e7o publicit\u00e1rio ao espa\u00e7o editorial, embora ressalte que algumas j\u00e1 adotam o princ\u00edpio \u00e9tico de n\u00e3o anunciar quando h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es editoriais sobre ela na edi\u00e7\u00e3o.<br><br>Mas o diretor da HG acredita que, apesar das dificuldades, as perspectivas para a ecom\u00eddias s\u00e3o otimistas, em decorr\u00eancia de uma valoriza\u00e7\u00e3o cada vez maior do tema da sustentabilidade. \u201cAtualmente a quest\u00e3o atinge cada um de n\u00f3s. O indiv\u00edduo que acelera seu carro est\u00e1 contribuindo para o aquecimento global da mesma forma seja na China, na Indon\u00e9sia ou em Pindamonhangaba e talvez isso aumente a relev\u00e2ncia da informa\u00e7\u00e3o que n\u00f3s estamos publicando\u201d, explica.<br><br>Milko lembra que a perspectiva da candidatura da senadora Marina Silva \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica tamb\u00e9m coloca o tema em evid\u00eancia. \u201cAli\u00e1s, esta semana a pr\u00f3pria ministra Dilma (virtual candidata do governo) j\u00e1 mudou o seu discurso, incluindo o tema ambiental. Isso \u00e9 uma mudan\u00e7a significativa e eu espero que n\u00e3o seja s\u00f3 fogo de palha, como foi a Eco 92\u201d, alerta. Assim como os outros participantes, ele acredita que uma reuni\u00e3o, mesmo que informal, das ecom\u00eddias poderia facilitar a comunica\u00e7\u00e3o com o mercado e valorizar o papel dessas informa\u00e7\u00f5es para a sociedade. \u201cA gente tem muito caminho a percorrer, se juntarmos os esfor\u00e7os\u201d, diz ele.<br><br>O jornalista Luciano Martins, que integra o \u201cObservat\u00f3rio da Imprensa\u201d e atua como analista de m\u00eddia, destacou no encontro a import\u00e2ncia das m\u00eddias socioambientais para a forma\u00e7\u00e3o da&nbsp; agenda p\u00fablica sobre o tema. \u201cA fun\u00e7\u00e3o principal da imprensa \u00e9 construir a din\u00e2mica da agenda p\u00fablica. Quando a imprensa coloca a quest\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o, a sociedade vai discutir a corrup\u00e7\u00e3o, quando a imprensa coloca a quest\u00e3o da sustentabilidade, as pessoas v\u00e3o discutir a sustentabilidade e esse \u00e9 o principal papel das ecom\u00eddias\u201d.<br><br>Martins acredita que \u00e9 preciso formula\u00e7\u00e3o de um modelo de neg\u00f3cios que liberte a m\u00eddia socioambiental da armadilha da publicidade. \u201cCom rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 ag\u00eancia de publicidade interessada honestamente na quest\u00e3o ambiental. Eu estou convencido de que n\u00e3o h\u00e1 possibilidades de se construir um modelo de neg\u00f3cio de comunica\u00e7\u00f5es nesse setor baseado em publicidade\u201d, explica, contando as dificuldades que enfrentou com as publica\u00e7\u00f5es que criou e dirigiu versando sobre o tema.<br><br>O editor da revista da Fapesp, jornalista Carlos Fioravante, falou sobre aspectos te\u00f3ricos e t\u00e9cnicos da atividade jornal\u00edstica, com foco na quest\u00e3o da sustentabilidade. Destacou a import\u00e2ncia de uma cobertura jornal\u00edstica contextualizada para o tema. Com base em seus estudos acad\u00eamicos, Fioravante mostrou a import\u00e2ncia de considerar as pautas a partir da intera\u00e7\u00e3o entre os seus atores. Para ele, \u00e9 preciso valorizar \u201ca intera\u00e7\u00e3o, o movimento, as coisas acontecendo\u201d, para n\u00e3o correr o risco de passar para o leitor uma vis\u00e3o linear da realidade.<br><br>Ele explica que o conceito de descoberta n\u00e3o vale mais e o que est\u00e1 em seu lugar \u00e9 o conceito de constru\u00e7\u00e3o: \u201c\u00e9 preciso viajar lentamente, mapear os territ\u00f3rios, dar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas, aos problemas e perceber se h\u00e1 conex\u00f5es ou n\u00e3o\u201d, pois \u00e9 atrav\u00e9s delas que as rela\u00e7\u00f5es se estabelecem. \u00c9 por causa de uma cobertura jornal\u00edstica linear que, em sua opini\u00e3o, \u201co desmatamento ainda \u00e9 um problema gen\u00e9rico, tratado como um problema n\u00e3o social, como um terremoto, sobre o qual n\u00e3o h\u00e1 controle. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pular etapas, sem estabelecer as conex\u00f5es passo a passo\u201d.<br><br>Ele questiona tamb\u00e9m a id\u00e9ia de que o jornalista \u00e9 um intermedi\u00e1rio, que leva a informa\u00e7\u00e3o, sem mudar nada, propondo a o conceito de mediador. \u201cNo fundo os intermedi\u00e1rios s\u00e3o dispens\u00e1veis. Os mediadores s\u00e3o os que transformam, que incomodam, que perturbam\u201d ,diz ele, citando exemplos de reportagens que mudaram a realidade porque estavam conectadas com todos os atores da realidade, oferecendo n\u00e3o uma solu\u00e7\u00e3o para ser obedecida, mas uma proposta aberta, que coloca as possibilidades de a\u00e7\u00e3o fora das esferas do poder. \u201cO jornalista precisa ampliar o olhar\u201d, concluiu.<br><br>Celso Dobes Bacarji (Envolverde), especial para o Instituto Ethos<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Instituto Ethos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O papel das chamadas eco-m\u00eddias, ou ve\u00edculos que trabalham com pautas de sustentabilidade, na busca da sociedade por um modelo de produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel e as dificuldades de capta\u00e7\u00e3o de recursos para financiar a informa\u00e7\u00e3o foram os principais temas do \u201cDi\u00e1logos EcoM\u00eddias\u201d, realizado pela Envolverde e a Ruschel &amp; Associados, em S\u00e3o Paulo. 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