{"id":341,"date":"2009-12-08T23:31:29","date_gmt":"2009-12-08T23:31:29","guid":{"rendered":"https:\/\/agenciaunicom.com.br\/blog\/?p=341"},"modified":"2020-11-01T23:32:51","modified_gmt":"2020-11-01T23:32:51","slug":"os-dilemas-da-comunicacao-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agenciaunicom.com.br\/blog\/os-dilemas-da-comunicacao-no-brasil\/","title":{"rendered":"Os dilemas da comunica\u00e7\u00e3o no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Discurso feito pelo diretor da Carta Maior, Joaquim Ernesto Palhares, na mesa que debateu &#8220;Princ\u00edpios da Comunica\u00e7\u00e3o&#8221;, no segundo dia da Confer\u00eancia Estadual de Comunica\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo:<br><\/em><br>\u201cO setor da comunica\u00e7\u00e3o no Brasil n\u00e3o reflete os avan\u00e7os que ao longo dos \u00faltimos trinta anos a sociedade brasileira garantiu em outras \u00e1reas. Isso impede que o pa\u00eds cres\u00e7a democraticamente e se torne socialmente mais justo. A democracia brasileira precisa de maior diversidade informativa e de amplo direito \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o. Para que isso se torne realidade, \u00e9 necess\u00e1rio modificar a l\u00f3gica que impera no setor e que privilegia os interesses dos grandes grupos econ\u00f4micos\u201d.<br><br>Este \u00e9 um trecho do Manifesto da M\u00eddia Livre, movimento lan\u00e7ado no ano passado, reunindo jornalistas, estudantes, trabalhadores da m\u00eddia, professores e representantes de movimentos sociais. O diagn\u00f3stico apresentado neste manifesto coloca-se como um desafio para a Confer\u00eancia Nacional de Comunica\u00e7\u00e3o.<br><br>Os propriet\u00e1rios dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o no Brasil defendem, entre seus ideais, a liberdade de express\u00e3o, a pluralidade, a competi\u00e7\u00e3o e o livre mercado. No entanto, o poder midi\u00e1tico no Brasil est\u00e1 concentrado nas m\u00e3os de um pequeno grupo de fam\u00edlias e suas respectivas empresas, que dominam o sistema de produ\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e det\u00e9m a imensa maioria dos recursos de publicidade (p\u00fablicos e privados).<br><br>O maior grupo de comunica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, a Rede Globo, possui mais de 220 ve\u00edculos, entre pr\u00f3prios e afiliados. \u00c9 o \u00fanico dos grandes conglomerados que possui todos os tipos de m\u00eddia, a maioria dos principais grupos regionais e a \u00fanica presente em todos os Estados brasileiros. Sozinha, a Globo controla mais da metade do mercado televisivo brasileiro. Segundo dados da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Jornais, relativos ao per\u00edodo 2001-2003, apenas seis grupos empresariais concentram a propriedade de mais da metade da circula\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de not\u00edcias impressas no pa\u00eds. Sozinhos, estes ve\u00edculos respondem por cerca de 55,46% de toda produ\u00e7\u00e3o di\u00e1ria dos jornais impressos.<br><br>Al\u00e9m do imenso poderio da Globo, outros seis grandes grupos regionais se destacam. A fam\u00edlia Sirotsky comanda a Rede Brasil Sul de Comunica\u00e7\u00f5es, controlando o mercado midi\u00e1tico no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. A fam\u00edlia Jereissati est\u00e1 presente no Cear\u00e1 e em Alagoas. A fam\u00edlia Daou tem grande influ\u00eancia no Acre, Amap\u00e1, Rond\u00f4nia e Roraima. A m\u00eddia da Bahia pertence \u00e0 fam\u00edlia Magalh\u00e3es. No Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, os neg\u00f3cios s\u00e3o controlados pela fam\u00edlia Zahran. E, por fim, a fam\u00edlia C\u00e2mara tem grande influ\u00eancia em Goi\u00e1s, Distrito Federal e Tocantins. Em suas manifesta\u00e7\u00f5es editoriais, todas essas empresas afirmam a independ\u00eancia como um valor que, supostamente, definiria seu trabalho. Independentes do qu\u00ea e de quem, exatamente? Essa pergunta nunca \u00e9 respondida. E n\u00e3o o \u00e9, porque a resposta mostraria que o rei est\u00e1 nu!<br><br>Qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0 necessidade de democratizar esse cen\u00e1rio \u00e9 rebatida fortemente por artigos e editoriais enfurecidos destes grupos hegem\u00f4nicos. Quem defende a democratiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e do acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o \u00e9 imediatamente acusado de \u201cautorit\u00e1rio\u201d e \u201cinimigo da liberdade de imprensa\u201d. O poder das grandes corpora\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas \u00e9 muito forte, estendendo-se tamb\u00e9m \u00e0s escolas e universidades que formam os futuros profissionais da comunica\u00e7\u00e3o. A imensa maioria de quem se prepara para entrar no \u201cmercado da comunica\u00e7\u00e3o\u201d quer arrumar um emprego na Globo, na Folha de S\u00e3o Paulo, na Veja, no Estad\u00e3o, na RBS, etc. Profissionais ligados direta ou indiretamente a essas empresas garimpam sistematicamente talentos nos bancos escolares. Os professores que procuram navegar contra a corrente s\u00e3o, o mais das vezes, taxados como exc\u00eantricos e confinados a guetos.<br><br>\u00c9 importante ter em mente que esse n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno exclusivamente brasileiro. A realidade midi\u00e1tica mundial n\u00e3o \u00e9 distinta. O escritor franc\u00eas Paul Virilio, ao falar sobre o papel da m\u00eddia no mundo de hoje, definiu bem o tamanho do problema a ser enfrentado. A m\u00eddia contempor\u00e2nea, disse Virilio, \u00e9 o \u00fanico poder que tem a prerrogativa de editar suas pr\u00f3prias leis, ao mesmo tempo em que sustenta a pretens\u00e3o de n\u00e3o se submeter a nenhuma outra. A justificativa para tal procedimento trafega entre o cinismo e a treva: uma vez afetada a liberdade de imprensa, todas as liberdades estar\u00e3o em perigo. Cinismo, denuncia, porque esta reivindica\u00e7\u00e3o agressiva trata de negar o \u00f3bvio: os meios de divulga\u00e7\u00e3o e de forma\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o v\u00eam se concentrando, de forma brutal, no mundo inteiro, nas m\u00e3os de grandes empresas.<br><br>A transforma\u00e7\u00e3o dos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o em grandes empresas, com interesses que v\u00e3o muito al\u00e9m daqueles propriamente midi\u00e1ticos, fez da informa\u00e7\u00e3o, definitivamente, uma mercadoria regida pela l\u00f3gica que comanda o mundo do lucro. Ela, a informa\u00e7\u00e3o, progressivamente, deixa de ser um bem e um servi\u00e7o p\u00fablico. Isso se reflete diretamente na qualidade dos notici\u00e1rios que assistimos todos os dias nos jornais, r\u00e1dios, televis\u00f5es e sites. A economia passou a reinar nestes espa\u00e7os. Todo o resto passou a ser tratado de forma secund\u00e1ria e como um espet\u00e1culo. Esse fen\u00f4meno \u00e9 mais dram\u00e1tico na pol\u00edtica, onde a cobertura tornou-se, no mais das vezes, uma explora\u00e7\u00e3o de fofocas, intrigas e banalidades. As pautas e os espa\u00e7os priorit\u00e1rios passam a ser definidos pelos interesses econ\u00f4micos estrat\u00e9gicos dessas empresas.<br><br>Esse poderio econ\u00f4mico tem repercuss\u00e3o direta na vida pol\u00edtica e social do pa\u00eds. Assim, falar da necessidade de democratizar a m\u00eddia implica, diretamente, falar da necessidade de democratizar o poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico. Os interesses econ\u00f4micos e as articula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas decorrentes destes interesses refletem-se diretamente na qualidade da informa\u00e7\u00e3o oferecida ao p\u00fablico. No Brasil, a cobertura pol\u00edtica dos grandes ve\u00edculos nos \u00faltimos anos mal consegue disfar\u00e7ar seus interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos.<br><br>Infelizmente estamos caminhando nesta dire\u00e7\u00e3o, no Brasil e no mundo. A queda na qualidade do jornalismo \u00e9 algo assustador que amea\u00e7a o futuro da pr\u00f3pria democracia. N\u00e3o se trata, portanto, de um debate restrito aos profissionais do setor, mas de uma agenda de toda a sociedade. \u00c9 o direito de dispor de uma informa\u00e7\u00e3o de qualidade que est\u00e1 em jogo. E por isso, \u00e9 preciso come\u00e7ar j\u00e1. E um dos primeiros passos \u00e9 o fortalecimento da articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre todos aqueles setores preocupados com a democratiza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia no Brasil. Mais do que declara\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas de apoio, precisamos construir iniciativas concretas que mostrem \u00e0 popula\u00e7\u00e3o a natureza do problema e como ele influencia na sua vida di\u00e1ria. Essa \u00e9 uma das agendas que deve avan\u00e7ar na Confer\u00eancia Nacional de Comunica\u00e7\u00e3o.<br><br>Esse debate interessa aos pr\u00f3prios empres\u00e1rios do setor que apresenta alguns n\u00fameros preocupantes. Em artigo publicado no Observat\u00f3rio da Imprensa, Carlos Castilho revela alguns dados da surpreendente queda na venda avulsa dos grandes jornais brasileiros. O artigo relata:<br><br>A Folha de S.Paulo, considerada um dos tr\u00eas mais influentes jornais do pa\u00eds, vendeu em m\u00e9dia 21.849 exemplares di\u00e1rios em bancas em todo o territ\u00f3rio nacional entre janeiro e setembro de 2009. Em outubro de 1996, a venda avulsa de uma edi\u00e7\u00e3o dominical da Folha chegava a 489 mil exemplares. Segundo o Instituto Verificador de Circula\u00e7\u00e3o (IVC) a Folha \u00e9 o vig\u00e9simo quarto jornal em venda avulsa na lista dos 97 jornais auditados pelo instituto, atr\u00e1s do Estado de S.Paulo, em 19\u00b0 lugar e O Globo, em 15\u00b0 lugar. Somados os tr\u00eas mais influentes jornais brasileiros t\u00eam uma venda avulsa de quase 96 mil exemplares di\u00e1rios, o que corresponde a magros 4,45% dos 2.153.891 jornais vendidos diariamente em banca nos primeiros nove meses de 2009.<br><br>O atual perfil da imprensa brasileira mostra que os tr\u00eas grandes jornais nacionais agarram-se \u00e0 classe m\u00e9dia para manter assinantes e influenciar na agenda pol\u00edtica do pa\u00eds, mesmo com tiragens reduzid\u00edssimas, correspondentes a menos de 5% da m\u00e9dia da venda avulsa nacional.<br><br>Esses n\u00fameros indicam claramente que algo vai mal na imprensa brasileira. Indicam, sobretudo, a necessidade de profundas mudan\u00e7as.<br><br>Para utilizar uma express\u00e3o ao gosto dos grandes empres\u00e1rios do setor, precisamos de uma revolu\u00e7\u00e3o capitalista na comunica\u00e7\u00e3o brasileira. Mais propriet\u00e1rios, mais ve\u00edculos, mais produtores de comunica\u00e7\u00e3o, produtos de melhor qualidade, consumidores mais exigentes, descentraliza\u00e7\u00e3o dos centros produtores para garantir o direito de todos os brasileiros terem informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o de qualidade. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o ser\u00e1 feito no modelo atual, fortemente monopolista e excludente. Os empres\u00e1rios da comunica\u00e7\u00e3o precisam decidir se querem mesmo fazer comunica\u00e7\u00e3o, entendida como um bem de utilidade p\u00fablica, ou seguir\u00e3o tratando-a como uma mercadoria qualquer, cujo sucesso, depende de esmagar os competidores a qualquer pre\u00e7o.<br><br>Mas h\u00e1 boas not\u00edcias neste cen\u00e1rio. Nos \u00faltimos anos, essa hegemonia de grandes grupos midi\u00e1ticos come\u00e7ou a ser enfrentada por um crescente n\u00famero de iniciativas. A internet tornou-se um espa\u00e7o privilegiado dessas iniciativas, mas n\u00e3o o \u00fanico. Os movimentos de Software Livre, de r\u00e1dios comunit\u00e1rias, de constru\u00e7\u00e3o de redes de comunica\u00e7\u00e3o de movimentos sociais, de sites , blogs e publica\u00e7\u00f5es alternativas abriram brechas no bloco monopolista da grande m\u00eddia. Al\u00e9m disso, jornalistas que conheceram de perto o funcionamento desses grupos passaram a desenvolver um trabalho de exposi\u00e7\u00e3o das entranhas da imprensa brasileira. O conjunto dessas iniciativas contribuiu para a acumula\u00e7\u00e3o de um in\u00e9dito capital cr\u00edtico sobre o poder dessas empresas. Um poder, importante assinalar, que segue muito forte.<br><br>Falar de uma comunica\u00e7\u00e3o de qualidade, neste cen\u00e1rio, significa falar, entre outras coisas, em liberdade de cria\u00e7\u00e3o, de difus\u00e3o e de acesso. Significa compartilhar conhecimentos, recursos, pr\u00e1ticas e iniciativas. As palavras \u201cliberdades\u201d e \u201ccompartilhamento\u201d expressam, em boa medida, o que \u00e9 sonegado hoje \u00e0 maioria da popula\u00e7\u00e3o. Elas apontam para uma vis\u00e3o generosa de um mundo mais solid\u00e1rio, onde a comunica\u00e7\u00e3o, o di\u00e1logo com o pr\u00f3ximo e a criatividade n\u00e3o s\u00e3o reduzidas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de mais uma mercadoria destinada a gerar lucro m\u00e1ximo a custo m\u00ednimo.<br><br>Esse \u00e9 o esp\u00edrito que deve animar nossos debates na Confer\u00eancia em busca da constru\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o que propicie o encontro, o di\u00e1logo, a cria\u00e7\u00e3o e a partilha de informa\u00e7\u00f5es, pr\u00e1ticas e experi\u00eancias. Um espa\u00e7o que, fundamentalmente, enxergue a comunica\u00e7\u00e3o como uma pr\u00e1tica a servi\u00e7o da verdade, da justi\u00e7a e da liberdade e n\u00e3o como meramente mais uma fonte de lucro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Discurso feito pelo diretor da Carta Maior, Joaquim Ernesto Palhares, na mesa que debateu &#8220;Princ\u00edpios da Comunica\u00e7\u00e3o&#8221;, no segundo dia da Confer\u00eancia Estadual de Comunica\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo:\u201cO setor da comunica\u00e7\u00e3o no Brasil n\u00e3o reflete os avan\u00e7os que ao longo dos \u00faltimos trinta anos a sociedade brasileira garantiu em outras \u00e1reas. 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