{"id":441,"date":"2010-10-09T18:31:24","date_gmt":"2010-10-09T18:31:24","guid":{"rendered":"https:\/\/agenciaunicom.com.br\/blog\/?p=441"},"modified":"2020-11-10T18:32:54","modified_gmt":"2020-11-10T18:32:54","slug":"a-diferenca-entre-civilizacao-2-0-e-humanidade-2-0","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agenciaunicom.com.br\/blog\/a-diferenca-entre-civilizacao-2-0-e-humanidade-2-0\/","title":{"rendered":"A diferen\u00e7a entre civiliza\u00e7\u00e3o 2.0 e humanidade 2.0"},"content":{"rendered":"\n<p>Somos muito menos inventivos quando se trata de problemas humanos do que de problemas tecnol\u00f3gicos \u2013 Arnold Toynbee \u2013 da minha cole\u00e7\u00e3o de frases. Na evolu\u00e7\u00e3o dos debates, posso afirmar que hoje estou convencido que estamos entrando em uma nova civiliza\u00e7\u00e3o 2.0.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma s\u00e9rie de ajustes ser\u00e3o feitos no mundo para comportar tanta gente, tendo a web como um grande sistema operacional de conhecimento embaixo de tudo. Antes que os tecno-otimistas saiam do arm\u00e1rio, posso dizer que n\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a humana-filos\u00f3fica, mas uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos saindo da classe dominante \u201cA\u201d para a classe dominante \u201cB\u201d que dar\u00e1 um upgrade civilizacional importante, mas nada que nos altere enquanto seres humanos, no nosso dia-a-dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Teremos um ambiente revisado no futuro, mas com as mesmas guerras, viol\u00eancias, injusti\u00e7as. Pois a base da nossa rela\u00e7\u00e3o de cada um com cada um n\u00e3o se altera, mesmo que a civiliza\u00e7\u00e3o mude.Para que haja mudan\u00e7as nessa rela\u00e7\u00e3o pessoa-pessoa, \u00e9 necess\u00e1ria uma interven\u00e7\u00e3o, uma quebra.<\/p>\n\n\n\n<p>O que assistimos \u00e9 um ajuste matem\u00e1tico. Seria um ajuste geom\u00e9trico de sobreviv\u00eancia, que cont\u00e9m e conter\u00e1, claro, novos conceitos sociais, pois o jogo \u00e9 outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns neo-escravos passar\u00e3o a ter alma, tais como consumidores, mulheres ainda prisioneiras poder\u00e3o tirar suas burkas, a preocupa\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica ter\u00e1 outro patamar, liberdades individuais estar\u00e3o mais ampliadas, questionaremos o poder das religi\u00f5es e a sua educa\u00e7\u00e3o tanto em casa como na escola.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria demonstra, entretanto, que mudan\u00e7as civilizacionais iguais a essa, como no fim da Idade M\u00e9dia, n\u00e3o nos levaram a upgrades humanos, do ponto de vistas de nossas viol\u00eancias dom\u00e9sticas e mundiais. Ou seja, vamos sobreviver, mas n\u00e3o sabemos exatamente como, algumas coisas v\u00e3o melhorar e outras piorar, num processo de inevolu\u00e7\u00e3o, como j\u00e1 discuti aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro impresso, por exemplo, trouxe o outro distante para perto, mas deixou quem l\u00ea muito, com dificuldade de interagir com quem senta do lado, por exemplo, tal como estamos cada vez mais embrutecidos pelo uso de celulares e computadores. Desenvolvi o tema sobre isso por aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>O historiador Arnold Toynbee no final da vida, depois de estudar muitas civiliza\u00e7\u00f5es do passado, ao ser perguntado sobre o futuro da humanidade, afirmou que s\u00f3 uma revolu\u00e7\u00e3o espiritual faria algum sentido. O termo espiritual pode ser entendido, a meu ver, como um processo de auto-conhecimento de cada um, questionando as caixas sociais, que nos fazem seguir a trilha da ideologia vigente, sem nos questionarmos, incluindo fortemente a\u00ed a educa\u00e7\u00e3o religiosa, que molda nosso modo de pensar, na qual nossa cabe\u00e7a \u00e9 uma mesa e a caixa ideol\u00f3gica, o verniz.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada um por si e a ideologia cega por todos! Ou seja, se proporia um trabalho cotidiano de se apostar no livre arb\u00edtrio, na liberdade de ideias e no sentido de nos sentirmos envolvidos com um todo, longe de ser Deus, mas de termos algo maior do que nosso pr\u00f3prio umbigo, tal como as gera\u00e7\u00f5es futuras, por exemplo. Algo como uma miss\u00e3o superior aos nossos egos carentes, tanto inflados ou desinflados.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, s\u00e3o nossos egos que nos levam para passear; e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Num mundo cada vez mais numeroso, vejo uma forte tend\u00eancia de cada vez mais seguidores compulsivos em massa, mesmo que segmentados, do que pensadores independentes. Isso independe das mudan\u00e7as da civiliza\u00e7\u00e3o. Estarei errado?<\/p>\n\n\n\n<p>Vejo o Twitter muitas vezes mais escravizando do que libertando seus usu\u00e1rios. Portanto, da mesma maneira que acho que estamos diante de uma revis\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o de suas institui\u00e7\u00f5es e de conceitos que as cercam: um processo inapel\u00e1vel, por uma quest\u00e3o matem\u00e1tica: sete bilh\u00f5es n\u00e3o podem ter as empresas e institui\u00e7\u00f5es que temos hoje, pois s\u00e3o lentas para atender as novas demandas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00d3bvio que haver\u00e1 esfor\u00e7os, contra-esfor\u00e7os, mas a realidade ser\u00e1 mais forte do que as a\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias. \u00c9 quase uma lei.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o sou eu que digo, mas Galileu que d\u00e1 a pista no seu princ\u00edpio da similitude: Um ambiente infomacional que cresce em tamanho, precisa mudar de forma, sen\u00e3o explode!<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a tal mudan\u00e7a \u201cespiritual\u201d que nos elevaria a uma coletiva mudan\u00e7a de postura em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s mesmos e aos outros, de redu\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 algo matem\u00e1tico e inapel\u00e1vel, assim como n\u00e3o o era o caminho hist\u00f3rico ao socialismo.<br>(Propunha-se mudar a sociedade, mas n\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o de cada um consigo mesmo.)<br>Vamos rever a civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o por uma quest\u00e3o espiritual ou filos\u00f3fica geral, mas por necessidade. Isso tem que ficar claro para os tecno-otimistas de plant\u00e3o, com seus \u00f3culos 3D cor de rosa!<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, podemos refletir que ajustes ser\u00e3o feitos e podemos chamar esse novo mundo, p\u00f3s-Idade M\u00eddia, de uma civiliza\u00e7\u00e3o 2.0, mais din\u00e2mica, colaborativa por sobreviv\u00eancia, do que a passada.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, a humanidade 2.0, se podemos dizer algo assim, que passaria por uma revis\u00e3o, independente de tempo e lugar, na nossa rela\u00e7\u00e3o com nossas caixas, de conscientiza\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s de aliena\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 algo que me parece dado, mas precisa ser realmente constru\u00edda, que passa longe de mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e at\u00e9 civilizacionais \u2013 longe inclusive das propagandas religiosas, mais do que nunca alienantes.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o resta d\u00favida que uma mudan\u00e7a pode ajudar na outra, mas \u00e9 uma quest\u00e3o de sabedoria conseguir juntar as duas e n\u00e3o algo natural, como \u00e9 e ser\u00e1 a mudan\u00e7a da civiliza\u00e7\u00e3o por necessidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria um processo, portanto, n\u00e3o matem\u00e1tico, mas de ruptura com o nosso modelo mental de pensamento, colados \u00e0s caixas das ideologias vigentes, que tentei come\u00e7ar a discutir um m\u00e9todo aqui.<br><br>Ser\u00e1 poss\u00edvel em massa?<br><br>N\u00e3o estamos rumando para nenhum para\u00edso, apenas para uma sociedade mais ajustada a um planeta mais populoso, certamente mais din\u00e2mico do que o anterior, com perdas e ganhos no processo, pois crescer \u00e9 sempre um perde e ganha (avisa-se aos Peter Pans).<\/p>\n\n\n\n<p>Repito: considerar que esse ajuste aritm\u00e9tico da civiliza\u00e7\u00e3o, a meu ver inevit\u00e1vel, nos elevar\u00e1 enquanto novos humanos, n\u00e3o \u00e9 o que vejo, pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mudan\u00e7a de mentalidade depende de l\u00edderes, m\u00e9todos de conscietiza\u00e7\u00e3o (a la Paulo Freire, Boal, AA reajustados) e esfor\u00e7os di\u00e1rios, pois a rela\u00e7\u00e3o com o ego, na constru\u00e7\u00e3o de sabedoria, n\u00e3o \u00e9 cumulativa, \u00e9 muito mais um esfor\u00e7o de todo dia.<\/p>\n\n\n\n<p>A sabedoria seria a rela\u00e7\u00e3o amadurecida de conscientiza\u00e7\u00e3o di\u00e1ria n\u00f3s com as nossas alientantes caixas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 algo dado, mas constru\u00eddo com muito suor, tendo o livre arb\u00edtrio como bandeira. Ser\u00e1 que a humanidade est\u00e1 pronta para cada um ser o seu pr\u00f3prio l\u00edder?<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, repito: a civiliza\u00e7\u00e3o 2.0 vir\u00e1\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>A humanidade 2.0, entretanto, \u00e9 uma utopia, um sonho a ser tornado realidade, uma janela dentro da outra mudan\u00e7a, constru\u00edda em cada pessoa, todos os dias, atrav\u00e9s do power off nos pilotos autom\u00e1ticos.<br><br>Texto de Carlos Nepomuceno (nepomuceno@pontonet.com.br): professor, pesquisador e co-autor do livro Conhecimento em Rede (Editora Campus), coordenador do ICO, Instituto de Intelig\u00eancia Coletiva e diretor da Pontonet. Mais dele no blog CNepomuceno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somos muito menos inventivos quando se trata de problemas humanos do que de problemas tecnol\u00f3gicos \u2013 Arnold Toynbee \u2013 da minha cole\u00e7\u00e3o de frases. 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