{"id":450,"date":"2010-09-29T18:36:08","date_gmt":"2010-09-29T18:36:08","guid":{"rendered":"https:\/\/agenciaunicom.com.br\/blog\/?p=450"},"modified":"2020-11-10T18:37:29","modified_gmt":"2020-11-10T18:37:29","slug":"o-new-journalism-como-grife","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agenciaunicom.com.br\/blog\/o-new-journalism-como-grife\/","title":{"rendered":"O new journalism como grife"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando o new journalism surgiu na d\u00e9cada de 60 os norte-americanos estavam saturados do estilo de reportagem objetivo, telegr\u00e1fico, impessoal e tal vez por isso a conservadora sociedade estaudinense encantou-se com a narrativa quase ficcional, aleg\u00f3rica at\u00e9, por\u00e9m pr\u00f3xima dos fatos, daqueles que se tornariam os maiores expoentes do movimento. O new journalism nasceu nas revistas (The New Yorker, Esquire e The Rolling Stone, dentre outras refer\u00eancias) e n\u00e3o foi por acaso. Os magazines, diferente dos jornais, tinham de oferecer a seus leitores um card\u00e1pio mais atraente, diferente do feij\u00e3o com arroz servido pelos jornais e da salada de tomate e alface, a entrada b\u00e1sica dos telejornais. As revistas apuravam o tempero, tinham tempo para isso, e serviam ao leitor um prato preparado nas min\u00facias; o jornalista, ele pr\u00f3prio, metia as m\u00e3os na massa.<br><br>Os ventos do Norte tamb\u00e9m sopraram no hemisf\u00e9rio sul e logo os brasileiros encantaram-se com a novidade. Paulo Patarra que comandava a equipe original da revista &#8220;Realidade&#8221; (1966) comprou a id\u00e9ia desde os prim\u00f3rdios da publica\u00e7\u00e3o e incentivou a turma a produzir reportagens do g\u00eanero. Que logo teriam grande acolhida entre o p\u00fablico alvo: &#8221; A revista dos homens e das mulheres inteligentes que querem saber mais a respeito de tudo&#8221;, segundo o slogan da campanha da Editora Abril que marcou o seu lan\u00e7amento. A revista definia o seu nicho : os brasileiros que pensam. O fato \u00e9 que &#8220;Realidade&#8221; inspirou-se no modelo da &#8220;Esquire&#8221; e \u00e0 semelhan\u00e7a do magazine norte-americano investiu no texto livre, investigativo e elaborado, priorizando a narrativa.\u00a0 Tamanho o cuidado com o estilo que Patarra criou na reda\u00e7\u00e3o um cargo at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dito na imprensa brasileira: editor de texto.<br><br>O fim do g\u00eanero<br><br>O New Journalism foi um movimento atemporal, marcou v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es e deixou a narrativa e a alegoria como seu grande legado, mas deixou algo tamb\u00e9m imaterial. Nos Estados Unidos o estilo virou grife, enquanto no Brasil apenas uma vaga lembran\u00e7a. Na Am\u00e9rica destacaram-se como os principais expoentes do movimento Gay Talese, Tom Wolfe, Normam Mailler, Truman Capote e, digamos, o John Hersey que transformou as suas reportagens da cobertura do impacto da bomba de Hiroshima num best-seller editorial com o acr\u00e9scimo de uma nova reportagem realizada com os mesmos personagens 40 anos depois. Dever\u00edamos citar, ainda, a turma da &#8220;Esquire&#8221;: Thomas B. Morgan, Brock Brower, Terry Southern e a rapaziada do &#8220;The New Yorker&#8221;: Jimmy Breslin, Robert Christgau, Doon Arbus, Gail Sheehy, Lillian Ross, Tom Gallagher, Robert Benton e David Newman. E por que n\u00e3o, James Mill, o rep\u00f3rter especial da &#8220;Life&#8221;.<br><br>J\u00e1 no Brasil fora o Paulo Patarra, o grande incentivador, conta-se com os dedos da m\u00e3o os seguidores do New Journalism: Jos\u00e9 Hamilton Ribeiro, Joel Silveira, Marcos Faerman, Fernando Portela, Cl\u00e1udio Bojunga, dentre outros. Os remanescentes daquele tempo citam a revista &#8220;Realidade&#8221; e o &#8220;Jornal da Tarde&#8221; como precursores do g\u00eanero no pa\u00eds, mas tem dificuldades em apontar nomes. Por qu\u00ea? N\u00e3o importa, mas \u00e9 evidente que se para a rapaziada do hemisf\u00e9rio norte o New Journalism tornou-se uma grife e um meio de vida (rent\u00e1vel aposentadoria), no Brasil o g\u00eanero representa apenas saudades e apenas isso.<br><br>O pragmatismo e a grife<br><br>Os americanos, sempre pragm\u00e1ticos e cientes do papel que lhes foi atribu\u00eddo pelos te\u00f3ricos da comunica\u00e7\u00e3o de difusores culturais, viajam pelo mundo fazendo palestras, dando entrevistas, recriando e reinventando a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, vendendo livros\u2026 Enchendo os bolsos de d\u00f3lares. Para Tom Wolfe e Gay Talese, para citar os maiores expoentes do movimento grife, a saudade do estilo jornal\u00edstico lhes rende muito dinheiro. A prop\u00f3sito, em meados de novembro Tom Wolfe esteve no Brasil, mais uma vez, faturou 100 mil d\u00f3lares, convidado do evento Braskem Fronteiras do Pensamento. Elegante como sempre, representa bem o figurino da est\u00e9tica, disse a minha amiga M\u00f4nica Valle, no camarim do Teatro Castro Alves, que o New Journalism n\u00e3o morreu e n\u00e3o morrera: &#8220;Sempre haver\u00e1 um editor pronto para lhe dar espa\u00e7o&#8221;. Tem raz\u00e3o. \u00c9 a sobreviv\u00eancia, n\u00e3o mais do g\u00eanero, mas da grife.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o new journalism surgiu na d\u00e9cada de 60 os norte-americanos estavam saturados do estilo de reportagem objetivo, telegr\u00e1fico, impessoal e tal vez por isso a conservadora sociedade estaudinense encantou-se com a narrativa quase ficcional, aleg\u00f3rica at\u00e9, por\u00e9m pr\u00f3xima dos fatos, daqueles que se tornariam os maiores expoentes do movimento. 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