{"id":569,"date":"2009-10-28T00:28:10","date_gmt":"2009-10-28T00:28:10","guid":{"rendered":"https:\/\/agenciaunicom.com.br\/blog\/?p=569"},"modified":"2020-11-11T00:29:30","modified_gmt":"2020-11-11T00:29:30","slug":"os-limites-da-competitividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agenciaunicom.com.br\/blog\/os-limites-da-competitividade\/","title":{"rendered":"Os limites da competitividade"},"content":{"rendered":"\n<p>Costuma-se destacar os aspectos aparentemente positivos e as vantagens hipot\u00e9ticas da concorr\u00eancia e da competitividade entre empresas e tamb\u00e9m entre na\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se pode negar que a concorr\u00eancia nos mercados tenha exercido uma fun\u00e7\u00e3o central e fundamental na g\u00eanese e na expans\u00e3o do sistema de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Ela contribuiu para a gera\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o de riquezas materiais. Tamb\u00e9m estimulou e fortaleceu as aspira\u00e7\u00f5es de seus principais atores sociais, os empreendedores, de exigir uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mais democr\u00e1tica em oposi\u00e7\u00e3o ao regime feudal ou absolutista, em determinado per\u00edodo da hist\u00f3ria do mundo ocidental.<br><br>Mas, ao se tornar em objetivos exclusivos e excludentes, concorr\u00eancia e competitividade produzem efeitos negativos. Enfraquecem as rela\u00e7\u00f5es sociais e amea\u00e7am os ecossistemas de nosso planeta. Ao fazer a apologia da competitividade, os defensores da liberdade dos mercados e da concorr\u00eancia irrestrita parecem ignorar a necessidade imperativa de coopera\u00e7\u00e3o e solidariedade. Estas garantem o equil\u00edbrio e a sobreviv\u00eancia da sociedade, no plano nacional e internacional.<br><br><strong>Globaliza\u00e7\u00e3o e competi\u00e7\u00e3o<\/strong><br><br>A globaliza\u00e7\u00e3o das finan\u00e7as, da ind\u00fastria e das comunica\u00e7\u00f5es constitui um imenso desafio para a humanidade dividida em estados-na\u00e7\u00f5es. Estes se mostram a cada dia menos capazes de enfrentar e resolver os intrincados problemas decorrentes da concorr\u00eancia mundial. A concorr\u00eancia entre as empresas e as economias nacionais tornou-se um fim em si, uma ideologia \u201csagrada\u201d que perverte todas as esferas da vida individual e coletiva. Como todas as ideologias, tamb\u00e9m a da competitividade expressa os interesses de quem a promulga, defende e dela se beneficia no contexto de uma determinada estrutura econ\u00f4mica e pol\u00edtica.<br>Os conceitos de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, produtividade e crescimento econ\u00f4mico constituem os elementos centrais desta ideologia, que abstrai ou pretende ignorar seus custos sociais e ambientais. De uma institui\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a moderniza\u00e7\u00e3o das estruturas produtivas obsoletas em certo momento hist\u00f3rico, a concorr\u00eancia se transformou no maior obst\u00e1culo \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais dentro e entre as sociedades.<br><br>Em sua forma atual, a concorr\u00eancia est\u00e1 na origem da desigualdade social e econ\u00f4mica e da concentra\u00e7\u00e3o da riqueza e do poder nas m\u00e3os de pequenos grupos ou organiza\u00e7\u00f5es dificilmente control\u00e1veis pelos governos. A fim de competir na busca de lucratividade e de acumula\u00e7\u00e3o de capital, minimiza-se os valores da vida, os direitos humanos e a prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente.<br><br>A concorr\u00eancia e sua materializa\u00e7\u00e3o nos mercados impedem qualquer esfor\u00e7o de planejamento e de previs\u00e3o do futuro, porque funcionam em curto prazo e visam a maximiza\u00e7\u00e3o da rentabilidade dos investimentos, sem preocupa\u00e7\u00e3o com seu custo social. A pr\u00f3pria l\u00f3gica da concorr\u00eancia e a busca de competitividade implicam que haja sempre os que ganham (uma minoria) e os perdedores (a maioria). O processo de exclus\u00e3o dos que n\u00e3o conseguem competir \u00e9 um elemento intr\u00ednseco da luta pela sobreviv\u00eancia nos mercados que tende, inevitavelmente, para a marginaliza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o de contingentes crescentes da popula\u00e7\u00e3o.<br><br>Os padr\u00f5es de comportamento do neoliberalismo econ\u00f4mico e de seu imperativo de competir nos mercados estimulam e refor\u00e7am o individualismo e o consumo exacerbado. Tendem a desestruturar a vida coletiva nas escolas, nas empresas, nas fam\u00edlias e nas comunidades. Procura auto justificar-se como um darwinismo social e exige a submiss\u00e3o dos \u201cfracos\u201d \u00e0 hierarquia do poder. Dominados por oligop\u00f3lios que procuram eliminar os concorrentes, os mercados deixaram, h\u00e1 muito tempo, de assemelhar-se ao regime de concorr\u00eancia \u201cperfeita\u201d.<br><br>O mundo globalizado se parece, cada vez mais, com um campo de batalha, sem preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9ticas e sem sentimentos de compaix\u00e3o e de solidariedade, numa luta intermin\u00e1vel por posi\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas. Isto n\u00e3o impede que os defensores da ideologia da competitividade &#8211; os agentes publicit\u00e1rios e de marketing das grandes empresas, os economistas, as escolas de administra\u00e7\u00e3o e de economia e os lideres pol\u00edticos &#8211; proclamem as supostas virtudes e vantagens da concorr\u00eancia.<br><br>Chegam a advogar, em nome da competitividade, a \u201cguerra fiscal\u201d entre munic\u00edpios e estados, e apelam ao governo federal para proteg\u00ea-los da concorr\u00eancia externa. Da mesma forma, exigem a reforma trabalhista, a precariza\u00e7\u00e3o e a flexibiliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho e a redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, a serem definidos pela \u201clivre\u201d negocia\u00e7\u00e3o entre trabalhadores e empresas. As v\u00edtimas dessas pol\u00edticas irracionais s\u00e3o tratadas com indiferen\u00e7a, taxadas de \u201cinempreg\u00e1veis\u201d e merecedores, na melhor das hip\u00f3teses, de esmolas filantr\u00f3picas.<br><strong><br>O todo e as partes<\/strong><br><br>A teoria de sistemas ensina que \u201co todo \u00e9 diferente da soma das partes\u201d. Se aplicarmos essa id\u00e9ia \u00e0 nossa discuss\u00e3o, inferiremos que a concorr\u00eancia entre as empresas, geralmente oligop\u00f3lios, n\u00e3o resulta em maior equil\u00edbrio e racionalidade dos mercados. Ao contr\u00e1rio, a eros\u00e3o dos mercados pelos movimentos especulativos e multibilion\u00e1rios das grandes corpora\u00e7\u00f5es acaba minando e enfraquecendo o papel do Estado como promotor e defensor dos interesses p\u00fablicos coletivos. As contradi\u00e7\u00f5es e os lances especulativos do capitalismo competitivo &#8211; vide as fus\u00f5es, incorpora\u00e7\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es de ativos bilion\u00e1rios &#8211; s\u00e3o projetados em escala global e resultam em graves crises financeiras, desemprego e exclus\u00e3o social, agravados por conflitos \u00e9tnicos, religiosos e sociais que ampliam o fosso no interior de cada na\u00e7\u00e3o e entre as na\u00e7\u00f5es. A explora\u00e7\u00e3o desavergonhada de trabalhadores e, sobretudo, de trabalho infantil \u00e9 frequentemente invocada como necess\u00e1ria para aumentar a competitividade. Entretanto, nosso mundo tornou-se cada vez mais interdependente, o que exige um novo contrato social contra as tend\u00eancias \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o e discrimina\u00e7\u00e3o dos mais fracos.<br><br>Ao postularmos o papel de todos os homens como sujeitos e gestores de seus destinos, exigimos tamb\u00e9m o estabelecimento, mediante pol\u00edticas p\u00fablicas, de limites \u00e0 concorr\u00eancia e \u00e0 competitividade. No est\u00e1gio atual de desenvolvimento da humanidade, a concorr\u00eancia e a competitividade sem limites levam em seu bojo padr\u00f5es de comportamento irracionais e retr\u00f3grados como o nacionalismo xen\u00f3fobo, a intoler\u00e2ncia e o autoritarismo. \u00c9 por isso que propomos e defendemos o fortalecimento da democracia participativa, ancorada na conscientiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o dos atores sociais na luta por um regime pol\u00edtico capaz de equacionar e solucionar os problemas comuns a partir de um novo pacto social entre a sociedade e o Estado, caracterizado pelo pluralismo, a participa\u00e7\u00e3o, a solidariedade e o respeito dos direitos humanos &#8211; enfim, um novo marco civilizat\u00f3rio, baseado numa economia solid\u00e1ria que assegure, al\u00e9m do desenvolvimento da base material, um alto grau de conscientiza\u00e7\u00e3o e motiva\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, movida por princ\u00edpios e valores \u00e9ticos e de justi\u00e7a social. Em oposi\u00e7\u00e3o radical ao sistema de competi\u00e7\u00e3o, a economia solid\u00e1ria n\u00e3o ser\u00e1 o produto de autoritarismo, de uma administra\u00e7\u00e3o de uma via s\u00f3, de cima para baixo que torne a popula\u00e7\u00e3o em objeto passivo. Ela exige a participa\u00e7\u00e3o de todos, para se tornarem cidad\u00e3os e, assim, sujeitos do processo hist\u00f3rico.<br><br>O derretimento da economia global, a crise do sistema financeiro, o fechamento de in\u00fameras ind\u00fastrias, a queda geral das exporta\u00e7\u00f5es e importa\u00e7\u00f5es e, sobretudo o aumento dram\u00e1tico das taxas de desemprego assinalam o fim do capitalismo \u201claissez faire\u201d e os riscos da desregula\u00e7\u00e3o, enquanto reafirma o papel central do Estado. De fato, as economias que melhor funcionam neste nosso mundo conturbado s\u00e3o aquelas onde o Estado consegue impor maior e mais severa regula\u00e7\u00e3o dos mercados de produtos, servi\u00e7os e de trabalho, enquanto estende um \u201ccolch\u00e3o de seguran\u00e7a\u201d mediante servi\u00e7os de previd\u00eancia e de seguridade social, mesmo as custas de um maior d\u00e9ficit fiscal. A Fran\u00e7a, embora n\u00e3o escapou dos efeitos da crise, est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o melhor que os outros pa\u00edses da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, devido a seu setor p\u00fablico eficiente e investimentos pesados na infraestrutura de transportes (os TGV), a rede de estradas, e o desenvolvimento das centrais nucleares para a rede el\u00e9trica que respondem a 80% do consumo de energia.<br><br>Ademais, seguindo as injun\u00e7\u00f5es de J.M. Keynes, o governo franc\u00eas investe grandes somas na restaura\u00e7\u00e3o de monumentos e catedrais. O planejamento dos investimentos estende-se tamb\u00e9m ao sistema educacional, apostando historicamente na forma\u00e7\u00e3o dessas elites nas \u201cgrandes \u00e9coles\u201d que fornecem os quadros para a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Indubitavelmente, a carga tribut\u00e1ria exarada pelo Estado Frances \u00e9 elevada &#8211; 52% do PIB &#8211; mas, assegura e viabiliza os sistemas de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e de previd\u00eancia.<br><br>As fun\u00e7\u00f5es centrais de planifica\u00e7\u00e3o, regula\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o mais equitativa do produto social constituem parte integral da pol\u00edtica econ\u00f4mica da China que, pelo espanto do mundo ocidental e em plena crise continua a crescer a taxa de 8,5% ao ano e mantendo os n\u00edveis de investimentos de mais de 40% do PIB.<br><br>Sem reformas estruturais e pol\u00edticas, o mundo capitalista continuar\u00e1 a padecer dos efeitos da crise, nos pr\u00f3ximos anos.<br><br>Sobre o autor: Henrique Rattner \u00e9 professor da FEA-USP e consultor do Instituto de Pesquisas Tecnol\u00f3gicas (IPT). Foi fundador da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira para o Desenvolvimento de Lideran\u00e7as (ABDL) e diretor do programa LEAD no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Costuma-se destacar os aspectos aparentemente positivos e as vantagens hipot\u00e9ticas da concorr\u00eancia e da competitividade entre empresas e tamb\u00e9m entre na\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se pode negar que a concorr\u00eancia nos mercados tenha exercido uma fun\u00e7\u00e3o central e fundamental na g\u00eanese e na expans\u00e3o do sistema de produ\u00e7\u00e3o capitalista. 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